15 de out de 2010

A Revolução da Alma

Quase sempre quando projetistas decidem desenhar um novo modelo buscam a inovação, uma tentativa em tirar algo da cartola, um traço ou forma que possa ter uma função e impressionar o mercado de uma maneira impactante.

Podemos analisar vários desenhos de quadros com essas características únicas, como exemplo podemos citar os encaixes “skeletons” da suíça BMC, o formato “onda” da traseira e garfo da italiana Pinarello ou até mesmo a traseira curva da americana Serotta, sempre observamos essas formas que surgem tentando aperfeiçoar aquilo que já foi provado como uma das descobertas humanas mais eficientes; o desenho da bicicleta em um quadro formado por um duplo triangulo.

Laboratórios específicos em reproduzir a sobrecarga e o esforço pelo qual essas estruturas serão submetidas em competições mundo a fora, geram dados nos quais algumas dessas fabricas conseguem converter em desenhos internamente modificados para obtenção de mais performance.

Oriundo das pesquisas realizadas nesses laboratórios alguns anos atrás observamos o surgimento da assimetria no chain-stay traseiro visando uma melhor transferência da força aplicada aos pedais em velocidade, hoje isso parece quase que uma unanimidade na grande maioria dos quadros chamados de tecnológicos e atualizados.

A inovação faz parte de qualquer empresa que pense em evolução e continuidade, neste ultimo mês de julho visitei algumas fabricas italianas e vi que uma revolução discreta começa tomar corpo neste universo ávido por inovações, uma revolução que eu denominaria de um processo de melhora estrutural ou como eles dizem de rivoluzione dell’anima, uma revolução que caminha internamente para dentro dos quadros, onde essas marcas tradicionais italianas continuam fieis as formas simples do desenho básico de uma bicicleta e apenas procurando fazer uma modificação na alma de suas bicicletas.

Em uma dessas visitas a uma fabrica perguntei por que uma marca sempre identificada pela geometria tradicional vinha mudando com o passar dos anos sua forma para triângulos sejam eles dianteiros e traseiros menores, os seus quadros pareciam que estavam abaixando? Eles me responderam que quanto menor o triangulo mais rígido ele se torna e com o advento do canote em fibra de carbono, quanto mais canote exposto para fora do quadro mais esta parte da estrutura iria trabalhar neutralizando as vibrações; forma orientada para uma melhor função era a resposta da minha pergunta.

Novas laminações de carbono, reforços estruturais como pequenas colunas internas nas paredes de seus tubos com o objetivo de gerar mais rigidez e dissipar a vibração, assimetria completa dos quadros, não se limitando mais apenas ao stay traseiro, sobre dimensionamento das paredes internas, etc., tudo para melhorar aquilo que a meu ver já era ótimo.

Como gosto de testar essas maquinas tive o prazer de pedalar por alguns dias um quadro novo com a mesma geometria ao qual já tenho usado por quase 4 anos, mas dessa vez esse novo objeto de desejo vinha acrescido dessas modificações em sua alma tradicional e clássica. A diferença notada foi surpreendente, o quadro reagia melhor as minhas investidas e inacreditavelmente era mais macio ao pedalar, algo que na minha ingênua cabeça saudosista era inversamente proporcional, para mim a equação rigidez=desconforto começava a fazer parte do passado.

A beleza da forma que eu sempre apreciei ainda estava ali, como eu sempre a conhecia, mas nitidamente modificada na sua “alma” e perceptível apenas a quem convivesse com ela, ou melhor, pedalasse com ela.


Hebert Wagner Polizio é responsável comercial do Grupo Fast Runner, colunista da Revista VO2, colecionador e alucinado por bicicletas clássicas.


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